Geirr Tveitt
A música norueguesa reinventada
Dizia um amigo meu que a música de Geirr Tveitt “torna perfeitamente natural e aceitável a presença de Ogres e Trolls ao jantar”. De facto, o mundo fantástico para o qual o compositor nos transporta, de forma aparentemente fácil e natural, revela uma faceta rara de encontrar na música actual: a simplicidade.
Tveitt é um dos poucos compositores que não receia a dimensão telúrica, presente (de forma evidente) em toda a sua obra, nunca rejeitando a sua origem nórdica; pelo contrário: potencia-a, elevando-a a níveis quase primitivos, conferindo-lhe simultaneamente uma outra dimensão, de carácter cosmopolita. O resultado é uma música que nos vicia pela sua pureza, pela sua plenitude natural: o compositor convida-nos para uma comunhão de intimidades.
Nascido em Bergen (tal como Grieg), a vida de Geirr Tveitt (1908-1980), enquanto pianista e intérprete, foi pautada por inúmeras viagens, dando recitais e realizando concertos, por toda a parte (da Europa aos EUA). Enquanto compositor, era no Fjord de Hardanger que encontrava o retiro ideal, inspirador das suas composições. Era lá que se encontrava a casa de família, bem como a que para si construiu e que em 1970 ardeu por completo, perdendo-se grande parte do espólio musical do compositor; esta situação teve um impacto profundamente negativo em Tveitt, fazendo que não mais voltasse a compor.
Variações sobre uma Canção Popular de Hardanger para Dois Pianos e Orquestra traduz, na sua essência, a preocupação de Tveitt em dignificar e preservar o legado da música tradicional norueguesa (tal como o tinha já feito E. Grieg). Como refere o título, é uma peça composta para orquestra e dois pianos. Durante trinta minutos assiste-se a uma elaborada orquestração pautada pelo constante diálogo entre a orquestra e os dois pianos, com constante referência a temas folclóricos, resultado das pesquisas levadas a cabo por Tveitt sobre as tradições musicais de Hardanger. Toda a composição é uma enorme e fascinante melodia tradicional, do Fjord de Hardanger, transportando-nos instantaneamente para essa realidade tão imponentemente norueguesa: terra e mar. De notar o carácter intensamente sincopado das frases melódicas — facto que Grieg já tinha referido como uma das peculiaridades da música tradicional norueguesa.
O Concerto para Piano, n.º 4, Aurora Borealis, é considerado a sua obra mais proeminente, sintetizando um conteúdo mais tradicional como formalismo da dimensão cosmopolita (veja-se também o Concerto n.º 5, Op. 156, editado pela Naxos, especialmente o terceiro andamento). A magia da aurora boreal está presente ao longo de todo o concerto, através das múltiplas e absolutamente deliciosas texturas sonoras que o compositor evoca ou sugere de forma quase impressionista.
Os três andamentos são uma viagem no tempo natural. O primeiro andamento tem por título “A Aurora Boreal Surgindo sobre as Cores do Outuno”. São as primeiras impressões sobre a aurora boreal, constituídas por um diálogo complexo entre piano e orquestra. O segundo andamento, “Resplandecendo nos Céus de Inverno e…”, apresenta o fenómeno boreal em toda a sua plenitude e fascínio; a melodia torna-se modal em muitas passagens da orquestra e do piano. O terceiro andamento (sendo este o meu preferido), “Desaparecendo na Noite Brilhante de Primavera”, é a nostalgia da despedida, evidenciada logo nos primeiros acordes, mas com promessa do reencontro, no ciclo do eterno retorno.
É uma viagem absolutamente mágica, fascinante e, de certo modo, nostálgica, pelo céu e pelas estrelas do imaginário de Tveitt. Como refere D. Gallagher, “como Peer Gynt, Geirr Tveitt, por mais longe que viaje, permanece fiel a si mesmo e à sua origem”.


O Fogo do Céu